A energia de fusão vai chegar à rede eléctrica

Dr Francesco Romanelli

“A Europa só pode manter o ritmo se concentrar os seus esforços e seguir uma abordagem pragmática para a energia de fusão”, afirma o Dr. Francesco Romanelli, director da EFDA.

A Agência Europeia para o Desenvolvimento da Fusão Nuclear (EFDA) publicou um roteiro que descreve os passos para fornecer energia eléctrica baseada em fusão à rede pública por volta de 2050. O documento Roteiro para a concretização da energia de fusão organiza este processo em oito missões. Para cada missão, é analisado o estado actual da investigação, são identificadas as questões em aberto, é proposto um programa de programa de investigação e desenvolvimento e são estimados os recursos necessários. O roteiro aponta a necessidade de intensificar o envolvimento industrial e de maximizar as oportunidades de colaboração fora da Europa.

O objectivo da investigação em fusão é replicar na Terra o mecanismo da energia das estrelas, através da fusão de núcleos de hidrogénio. A energia de fusão é praticamente ilimitada, uma vez que se baseia em matéria-prima abundante: deutério e lítio. Não gera gases de efeito de estufa ou resíduos radioactivos de longa duração. É intrinsecamente segura, dado que é impossível desencadear reacções em cadeia.

Já se conseguiu gerar energia a partir da fusão nuclear controlada, mas por enquanto é preciso fornecer mais energia do que aquela que se consegue extrair. A experiência internacional ITER, que começará a funcionar em 2020, será o primeiro dispositivo a alcançar um excedente de energia de fusão: serão obtidos 500 megawatts a partir de uma energia inicial de 50 megawatts.

A Europa lidera a investigação em fusão a nível mundial, além de ser anfitriã da experiência ITER. O facto deste projecto ser também financiado e executado por outras seis nações extra-europeias reflecte as expectativas crescentes em torno da energia de fusão. A China, por exemplo, está a lançar um programa agressivo destinado à produção de eletricidade baseada em fusão muito antes de 2050. “A Europa só pode manter o ritmo se concentrar os seus esforços e seguir uma abordagem pragmática para a energia de fusão”, afirma o Dr. Francesco Romanelli, director da EFDA.

Focado nas actividades de investigação e de engenharia necessárias para atingir a electricidade baseada em fusão, o roteiro demonstra que estas podem ser realizadas dentro de um orçamento razoável. O montante de recursos propostos são do mesmo nível que os originalmente recomendados para o 7º Programa-Quadro Europeu de Investigação – fora o investimento europeu na construção do ITER.

O roteiro abrange três períodos: o próximo Programa-Quadro Europeu de Investigação, Horizonte 2020, o período 2021-2030 e o período 2031 e 2050.

O ITER é a principal aposta deste roteiro, uma vez que é nesta instalação que se espera que sejam atingidos muitos dos marcos mais relevantes no caminho para a energia de fusão. Assim, a grande maioria dos recursos propostos para o Horizonte 2020 são dedicados ao ITER e às suas experiências de acompanhamento. O segundo período é centrado na maximização da exploração do ITER e no preparação da construção de uma central de demonstração – DEMO – que será a primeira a fornecer energia de fusão para a rede eléctrica. Finalmente, a construção e operação do DEMO são o objectivo da derradeira fase do roteiro.

No decurso da implementação do roteiro, o programa de fusão evoluirá de uma perspectiva centrada nos laboratórios e na ciência em direcção a um empreendimento orientado para a indústria e a tecnologia. Só a construção do ITER já movimenta um volume de negócios de cerca de seis biliões de euros. A concepção, construção e operação do DEMO irão requerer um envolvimento total da indústria para assegurar que, após um período bem sucedido de operação, a indústria poderá assumir a responsabilidade pela comercialização da energia de fusão.

Sobre o EFDA e o Instituto Superior Técnico (IST)

O Acordo Europeu para o Desenvolvimento da Fusão (EFDA) é o acordo-quadro entre os laboratórios de fusão de 28 países europeus e a Comissão Europeia. No âmbito do EFDA, é operado e explorado o JET, a maior experiência europeia de fusão, por cientistas dos laboratórios associados ao acordo. O EFDA está especificamente envolvido na preparação do ITER e nas actividades de tecnologia com vista ao estabelecimento de uma central de fusão. O EFDA também apoia jovens investigadores em fusão através de formação e de programas de bolsas.

O IST é signatário do Acordo Europeu para o Desenvolvimento da Fusão.